Por Elvira Costa>>

Preconceito e violência nas redes sociais. O discurso nem sempre é de tolerância. Enquanto alguns falam sobre respeito às diferenças, tantos outros atacam.  Ainda tem muita gente escrevendo, e postando, e confiando na suposta proteção que o distanciamento da internet proporciona.

Na rede, vemos o preconceito do cotidiano em frases de intolerância. Algumas vezes, são generalizadas, como aquele caso do tuíte que dizia algo como “faça um favor… mate um nordestino afogado”. Outras vezes, a intolerância é dirigida, como nos casos de racismo contra as atrizes Taís Araújo e Cris Viana.

Mais tarde, surgiram comentários de que o caso de racismo teria sido "campanha de marketing" da atriz. Acredito que não foi esse o caso. Que foi, infelizmente, racismo / Imagem: reprodução/O Globo.

Mais tarde, surgiram comentários de que o caso de racismo contra Taís Araújo teria sido “campanha de marketing” da atriz. Acredito que não foi esse o caso. Que foi, infelizmente, racismo / Imagem: reprodução/O Globo.

 

Desabafo da atriz Cris Vainna no Facebook / Imagem: reprodução/ClicRBS

“Ainda passamos por isso em pleno 2015”, disse a atriz Cris Vianna, que publicou o desabafo no Instagram / Imagem: reprodução/ClicRBS

 

Outro dos mais comuns nas redes sociais é o preconceito de gênero. Com uma certa frequência, vemos desde as piadas politicamente incorretas, até as tristes noticias de crimes motivados por homofobia, ou contra as mulheres, pela razão de ser mulher. Quanto a esses, o Estado respondeu com a aprovação, em 2015, na lei do feminicídio, que considera homicídio qualificado aquele praticado pela razão de a vítima ser mulher.

Não faltam exemplos de práticas violentas, todo mundo conhece algum caso. Mas, do mesmo modo que o discurso de preconceito tem vez, a resposta das vitimas também. Taís Araújo fez um post de indignação, que recebeu centenas de comentários de apoio, e o caso foi noticiado por inúmeros veículos. Casos de homofobia e violência contra a mulher também têm sido amplamente noticiados pela mídia e, algumas vezes, pelas próprias vítimas em seus perfis nas redes sociais.

O algoz faz sua vitima, mas a vitima pode responder, é fato. Nesse ambiente onde o conflito social é notório, algumas marcas não se furtam de se posicionar. Com isso, ganham em valorização de marca e reconhecimento, demonstram que estão engajadas a causas importantes.

O Boticário – Dia dos Namorados 2015

Em 2015, O Boticário causou alvoroço nas redes sociais por conta de sua peça publicitária que mostrava casais homoafetivos. Consumidores insatisfeitos foram ao Conar (Conselho Nacional de Autoregulamentação Publicitária), que absolveu O Boticário. Além disso, ainda ganhou o Grand Effie, prêmio máximo no Effie Wards Brasil 2015. Intitulada “Um dia dos namorados para todas as formas de amor”, a peça é uma criação da AlmapBBDO. Confira.

Em 2015, O Boticário celebrou todas as formas de amor / Imagem: Youtube

Em 2015, O Boticário celebrou todas as formas de amor / Imagem: Youtube

Banco Mundial – Homem de verdade não bate em mulher

Lançada em 2013, a campanha do Banco Mundial, “Homem de verdade não bate em mulher”, buscou combater o estigma de que a Lei Maria da Penha é contra os homens. Aprovada em 2006, a lei busca coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher. Vários artistas se engajaram à campanha, como os atores Gabriel Braga Nunes e Cauã Reymond, e não cobraram cachê. Confira.

Homem de verdade não bate em mulher. A campanha incentivava o internauta a fazer uma foto segurando um cartaz com os dizeres da campanha. No Youtube, o vídeo da campanha foi compartilhado pelo canal da ONU Brasil / Iamgem: Youtube.

Homem de verdade não bate em mulher. A campanha incentivava o internauta a fazer uma foto segurando um cartaz com os dizeres da campanha. No Youtube, o vídeo da campanha foi compartilhado pelo canal da ONU Brasil / Iamgem: Youtube.

Prefeitura de Curitiba – Pelo fim dos privilégios contra deficientes

Essa foi difícil de engolir, pois de tão absurda não parecia real. A campanha pedia o fim dos benefícios a portadores de necessidades especiais, tais como as vagas reservadas em estacionamentos. Teve site, com direito a fórum de discussão, e até outdoor na rua. As pessoas, pelo menos a maioria deles, compartilharam indignadas. Pouco tempos depois, soubemos que era uma campanha da Prefeitura de Curitiba. Já um case no gerenciamento de redes sociais de órgãos públicos, a Prefs de Curitiba deu mais essa lição de como engajar o público nas redes sociais, sobretudo, para uma boa causa.

A campanha pela reforma dos direitos teve marca, página no Facebook, outdoor, fórum de discussão... Mas era uma ação da Prefeitura de Curitiba, através do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência / Foto: G1.

A campanha pela reforma dos direitos teve marca, página no Facebook, outdoor, fórum de discussão… Mas era uma ação da Prefeitura de Curitiba, através do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência / Foto: G1.

Preconceito de classe

Entre tantas manifestações, não faltam também as de preconceito sobre classe social. Supostamente, o McDonald’s teria postado um tuíte convidando candidatos que não foram bem no Enem a se candidatar a uma vaga na rede, post cuja autoria foi negada pelo McDonalds. Um funcionário de Recife-PE tratou de responder, devidamente fardado, em uma selfie. O conteúdo viralizou.

Até o momento de fazer o print para este post (16/12/15), o depoimento do garoto já tinha mais de 11.451 compartilhamentos. Em uma pesquisa rápida, deu para ver que o McDonald's ganhou em mídia espontânea (até o site da CASA COR deu a notícia sobre o depoimento de Charles) / Imagem: reprodução/Facebook

Até o momento de fazer o print para este post (16/12/15), o depoimento do garoto já tinha mais de 11.451 compartilhamentos. Em uma pesquisa rápida, deu para ver que o McDonald’s ganhou em mídia espontânea (até o site da CASA COR deu a notícia sobre o depoimento de Charles) / Imagem: reprodução/Facebook

A CASA COR Pernambuco, além de noticiar o fato, ainda entrevistou o rapaz. Confira.

Mensagem completa do funcionário do McDonald’s de Recife, Charles Richardd, sobre o meme do Enem:

“Depois de ver uma imagem ridícula dessas de fim de ano da internet de “Se não passar vestibular a segunda opção vai ser trabalhar na Mc Donalds” venho mandar um recadinho 😊:

Trabalho na Mc Donalds e é meu primeiro emprego e essa é uma das coisas que estou fazendo por enquanto que não acho um emprego na minha área. Não acho problema nenhum fazer isso. Não é indigno. Seria indigno se eu estivesse matando, roubando, vendendo droga por ai. VERGONHA é ficar em casa, com o rabo pra cima, criticando e falando mal dos outros! 😠 Eu Acho ótimo. Estou curtindo muito e achando o máximo trabalhar com o público de uma forma diferente. E foi com o meu salário que ganho da “Mc Donalds” que paguei minha Faculdade, E HOJE SOU FORMADO EM DESIGN DE INTERIORES. E em breve estarei fazendo minha PÓS GRADUAÇÃO (e só tenho apenas 18 anos!) 😉😉

Estou curtindo uma vida que nunca tive. Tenho orgulho de trabalhar como atendente. Ser atendente não é vergonha para ninguém.

Talvez as pessoas da “segunda opção” estão trabalhando pra pagar seu futuro (faculdade, escola) então antes de criticar qualquer trabalho, tome na vergonha na cara. Porque aquele que você zoa hoje, pode ser o rico que vai te DAR UM EMPREGO AMANHÔ.

Depois, questionaram o rapaz sobre já ser graduado com 18 anos, fato que ele logo explicou: o curso que ele fez é de graduação tecnológica, de duração de dois anos. Quem sai do ensino médio aos 16 consegue se formar aos 18. E o “meme do Enem”:

 

O McDonald's informou através do próprio Twitter que “A empresa informa que não tem qualquer relação com o conteúdo de posts relativos ao ENEM” / Imagem: O Tempo

O McDonald’s informou através do próprio Twitter que “A empresa informa que não tem qualquer relação com o conteúdo de posts relativos ao ENEM” / Imagem: O Tempo

Os conflitos sociais existem e as marcas precisam se posicionar diante deles, pois o discurso meramente comercial já não é suficiente. Alias, nas redes sociais, por exemplo, eles pouco engajam. Os breves exemplos mostram como o engajamento a causas sociais pode repercutir, levam as pessoas a debater o assunto. Por outros lado, a história recente tem mostrado que discursos de intolerância não são bem recebidos pelo público.

Com tantas causas necessitando de assistência, escolher uma que seja coerente com o perfil da marca pode trazer resultados que refletem em valorização da marca e até aumento de vendas. E ainda faz bem para a sociedade.

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