21
fev
2015

Beija-Flor, crise de imagem e de valores

Por Elvira Costa >>

Não vá pra rua, você é só massa de manobra. Ou vá pra rua, o país precisa mudar. Com tal variedade de pautas polêmicas, esse episódio da escola campeã não traz apenas uma crise de imagem para estudo de caso, mas ilustra a crise generalizada de valores da nossa sociedade.

Na quarta-feira, como milhares de brasileiros, eu torci pela Beija-Flor de Nilópolis. Não tenho uma escola do coração, geralmente escolho uma que agrada mais em cada ano. Em 2015, escolhi por causa do samba enredo. Versos que exaltavam a história de um povo, melodia contagiante e a voz icônica do Neguinho da Beija-Flor me fizeram vibrar pela escola de Nilópolis. Mesmo achando a passagem da Portela incrível, foi a Beija-Flor que me emocionou.

Vibrei diante da disputa eletrizante entre Beija-Flor e Salgueiro. Fiquei feliz ao ver que apostei na campeã. Admirei a fala do comentarista da Globo que enfatizou que quando a Beija-Flor aposta em enredos sobre a cultura africana costuma acertar, admirei a emoção do presidente da escola. Imediatamente após o resultado, fui olhar a repercussão na internet. Aí a euforia carnavalesca ruiu, pois a primeira notícia do feed no Facebook era uma matéria do portal Uol sobre o possível patrocínio recebido de uma das ditaduras mais violentas da África, comandada por Teodoro Obiang Nguema Mbasogo há 35 anos, na Guiné Equatorial. Segundo o jornal O Globo, o regime ditatorial da Guiné Equatorial investiu R$10 milhões no desfile.

O caso dividiu opiniões entre os que repudiaram a aliança (porque relação de patrocínio é uma aliança) e os que apoiaram a escola, apesar dos pesares. Acontece que a Guiné Equatorial vive uma ditadura sangrenta há décadas e tem uma das populações mais pobres do planeta, a despeito dos gastos aviltantes dos seus governantes. E uma coisa seria cantar sobre a história do seu povo, mas receber dinheiro do governo daquele país é comprometedor.

Falando nisso, quem consegue imaginar um enredo patrocinado pelo Estado Islâmico? Já pensou se Gaddafi tivesse patrocinado o Carnaval? E Saddam Hussein? Isso jamais havia passado pela minha cabeça até a tarde de quarta-feira. Já o pessoal do Sensacionalista tratou logo de escrever uma “notícia” simulando uma relação semelhante para o próximo ano:

A escola discute ideias. Se der Estado Islâmico, na comissão de frente a ideia é decapitar 20 cristãos na avenida. O nome do samba deverá ser ‘Deu Estado Islâmico na cabeça’, misturando bicho* com decapitação. Com todo este sucesso, há até quem queira mudar o nome da escola de Beija-Flor para ‘Urubu de Nilópolis’, ‘já que o urubu é um bicho que se alimenta basicamente de cadáveres’. (Sensacionalista).

*O jogo do bicho também tem relações com a Beija-Flor.

Enquanto digeria a notícia, pensei no nosso trabalho nos setores de Marketing, Propaganda e Relações Públicas nas empresas afora. A nossa tarefa é construir discursos e vender imagens. Manipulamos informações para fazer o nosso cliente sair bem na mídia. E manipular não precisa ser ruim, pode consistir tão somente em manejar os recursos disponíveis para disfarçar os pontos fracos e destacar os fortes, com ética e respeito ao público. Diante da notícia, senti como se fosse um ratinho de laboratório alienado do mundo lá fora. Como não pesquisei antes de escolher a escola?

Como se não bastassem todas as informações para ajudar a formar opinião, agora temos de procurar saber também da escola de samba. Pesquisar é bom, pois ajuda a fazer escolhas mais sensatas. Entretanto, nessa sociedade de valores tão flexíveis, pesquisar demais também pode te deixar paranoico. Não vote no candidato A por causa do mensalão estadual, não vote no B por causa do mensalão federal. Não vista aquela marca que emprega trabalho análogo ao de escravidão. Não compre de construtoras envolvidas em escândalos recentes. Não siga políticos polêmicos no Facebook, nem compartilhe vídeos de jornalistas contundentes. Não vá pra rua, você é só massa de manobra. Ou vá pra rua, o país precisa mudar. Com tal variedade de pautas polêmicas, esse episódio da escola campeã não traz apenas uma crise de imagem para estudo de caso, mas ilustra a crise generalizada de valores da nossa sociedade.

Vale tudo para fechar patrocínio? Com qual marca a sua marca se identifica? A relação entre patrocinador e patrocinado é uma troca, presume-se o desejo recíproco de vinculação de imagem. Espera-se que haja sintonia entre posicionamento de marcas e discursos de ambas as partes. Por isso, quando escolhe investir em determinado evento ou causa, uma marca precisa analisar o perfil do patrocinado. Do mesmo modo, ao negociar um patrocínio, os gestores devem analisar se o perfil do patrocinador está de acordo com o seu. Não é só o dinheiro que basta. Se for só por ele, as consequências podem ser nefastas.

Pelo que mostra a internet, a imagem da escola não sairá incólume deste episódio. E quando passar a polêmica carnavalesca, não nos esqueçamos: só o caso da Petrobras já é suficiente para o resto do ano, imagine... É triste.

A mais óbvia das consequências: outras marcas passam a desvincular a imagem daquela que está na confusão.

beija-flor carnaval 2015 ODB

Aqui o destaque é para a defesa do carnavalesco, que procura justificar o envolvimento da escola com outra polêmica, o financiamento pelo jogo do bicho. O jogo do bicho é contravenção penal prevista no artigo 58 da Lei de Contravenções Penais. A contravenção penal é uma espécie de infração penal, diferencia-se do crime pelo peso da pena aplicada. Às contravenções, aplicam-se penas menores. Mas elas não deixam de ser malandragem, no mínimo. Aliás, o troféu de 2015 é um malandro! Nada mais apropriado.

beija-flor post do uol

Troféu inspirado no malandro carioca, com direito a lenço e navalha.

trofeu carnaval 2015

Polêmica deixa internautas indignados.

Beija-Flor

Folha de São Paulo sobre o interesse do PSDB no assunto e a reação dos internautas. Realmente, a zoeira não tem limites. Ah! Vale visitar a página da Folha, que tem algumas notícias sobre o caso. Segundo a Folha, há envolvimento do ditador da Guiné até com jogador de futebol brasileiro. Para fortalecer a seleção da Guiné, ele concede naturalizações a jogadores daqui. Leia mais sobre o tema aqui.

beija-flor carnaval 2015 folha sp

Print do enredo publicado no site da escola, na aba de notícias: http://www.beija-flor.com.br/

beija flor enredo - do site da escola

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