Por Fernanda Sarate >>

Neste momento em que se fala de ‘amor líquido’[1] levantar questões como comprometimento, engajamento e paixão pode, num primeiro momento, parecer não ter muito sentido.

Se nos relacionamentos interpessoais a pós-modernidade nos leva a refletir sob tal perspectiva, no ambiente corporativo não é diferente. A verdade é que nossa realidade mostra-se um tanto oximorônica, isto é, na mesma sociedade em que a solidez do amor é posta em cheque, se fala, mais do que nunca, em afetividade e aproximação.

Neste contexto, surge no âmbito do branding[2] uma novidade revigorante. O processo de branding em sua versão mais tradicional tinha num extremo a empresa, proprietária legal da marca e, no outro, o consumidor. Hoje, neste processo, percebemos uma nova presença: a dos chamados Brand Guardian Angels, ou Anjos Guardiões da Marca, “pessoas que por uma circunstância ou muitas situações apaixonaram-se perdidamente pelas marcas e hoje se posicionam como seus principais defensores, seus anjos guardiões”. (SOUZA, 2009).

Muitos consumidores, hoje, aderem a esta nova categoria em expansão. São clientes que levam a marca da empresa em seu coração, que a defendem, admiram e auxiliam na sua disseminação e consolidação. Se no início muitas empresas mostraram-se receosas quanto aos Brand Guardian Angels, em razão da utilização de sua marca por terceiros, atualmente, qual empresa não gostaria de contar com essa ‘força de venda’ informal?

As empresas e marcas estão conseguindo inspirar amor nos consumidores, mas será que o mesmo acontece com os seus funcionários?

Segundo pesquisa realizada pelo Towers Perrin[3], apenas 21% dos funcionários entrevistados em diversos países – entre eles o Brasil – são engajados no seu trabalho. O conceito de engajamento aqui tratado abrange características como lealdade, impulso à inovação, crença no poder de contribuição para os resultados da empresa e para a satisfação do cliente. Colaboradores engajados sabidamente são os que “geram mais negócios”. E, para o diretor-executivo regional desse instituto, “as pessoas rendem muito mais quando estão apaixonadas pelo que fazem”.

O sociólogo Zygmunt Bauman afirma que o amor é “a vontade de cuidar e de preservar o objeto cuidado. […] um impulso de expandir-se, ir além […], um estímulo a proteger […]”. (BAUMAN, 2004, p. 24). Não são estes sentimentos que a empresa gostaria de despertar em seus colaboradores? Portanto, falta amor aos desengajados.

Se observarmos o ranking dos fatores tidos como os de maior potencial de geração de engajamento no Brasil, perceberemos que os mais importantes são intangíveis – vinculados ao desejo de qualificar o relacionamento, de se ter um líder preocupado com o bem-estar do funcionário, de se ter uma voz ativa nessa relação e, nas últimas posições, a questão do valor monetário da sua remuneração – assim como no amor.

Funcionários amplamente engajados são como os Anjos Guardiões citados acima: são impulsionados pelo amor, admiração e lealdade, pelo desejo de ver a empresa ofertando o melhor para seus clientes. Alguns fatores são apontados como grandes influenciadores do nível de engajamento dos funcionários: qualidade da liderança, reconhecimento, oferta de desafios, oportunidades de aprendizado e desenvolvimento, boa reputação do negócio, fluxos de comunicação eficientes, responsabilidade social, entre outras. Assim como no branding – e no amor –, a conquista dos ‘colaboradores-anjos’ não é aleatória, para se conquistar a proteção destes ‘anjos’, não basta apenas rezar.

Referências:

BAUMAN, Zygmunt. Amor Líquido. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004.

SOUZA, Francisco Alberto Madia. BGAs – Brand Guardian Angels. Disponível em: <http://www.madiamundomarketing.com.br/landmarketing/410/BGAs-BRAND-GUARDIAN-ANGELS.php>.

Fonte da imagem: hudsonhouston.com


[1]           Conceito desenvolvido pelo sociólogo Zygmunt Bauman para designar as fragilidades dos laços humanos. A liquidez do amor, aqui, designa a inconstância e a facilidade com que o sujeito contemporâneo ‘apaixona-se e desapaixona-se’, como se tudo escorresse sem a solidez das relações de longo prazo.

[2]           Branding pode ser entendido como o processo que engloba a criação da marca embasada em valores e crenças, o seu gerenciamento e a sua avaliação.

[3]           Disponível em www.towersperrin.com

 

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