16
fev
2011

Cale-se, jornalista!

Por Emanuela da Silva

É comum dizer que há muita diferença entre o discurso idealizado e as ações. Infelizmente, quando se trata de liberdade de expressão a afirmação é correta e polêmica. Esta semana, um jornalista foi demitido por contrariar interesses de pessoas ligadas ao ramo imobiliário baiano. O jornalista, Aguirre Peixoto, do jornal A tarde, da Bahia, foi demitido após uma série de reportagens as quais falavam em crime ambientais. O conteúdo das mesmas teria causado desconfortos em alguns empresários e como consequência a demissão do profissional, mesmo que ele estivesse apenas cumprindo seu papel. Você pode obter mais detalhes: http://portalimprensa.uol.com.br/portal/ultimas_noticias/2011/02/09/imprensa40665.shtml

O que dizem nossos governantes, que afirmam que neste país não há a censura? Não estamos falando dos anos de chumbo, período do regime militar; estamos em 2011. Enquanto isso, nos Estados Unidos, o Conselho Nacional de Relações do Trabalho entrou com uma ação contra uma empresa de ambulâncias que demitiu uma funcionária por ter criticado seu chefe no Facebook. De acordo com o conselho, a empresa infringiu o direito de liberdade de expressão. Veja aqui: http://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2011/02/conselho-diz-que-empregado-pode-falar-mal-de-empresa-no-facebook.html

A questão é a mesma com ponto de vista diferente. Daremos atenção ao essencial: a liberdade de expressão em ambos os casos e não a característica ética de cada um.  A imprensa não é livre em várias partes do mundo principalmente em sociedades que são governadas num sistema ditatorial como o Egito. Presenciamos as dificuldades da mídia em noticiar os acontecimentos políticos do país, os conflitos, os protestos da população para derrubar o ditador Hosni Mubarak do poder. Os profissionais de comunicação foram hostilizados, tratados como bandidos, capturados, tiveram os olhos vendados e os equipamentos apreendidos sem nenhum tipo de informação.

JORNALISTA, PROFISSÃO DE RISCO

O lado romântico da profissão é algo para as produções cinematográficas. A realidade é um pouco mais cruel e o final nem sempre é feliz. Em 2010, o Observatório da Imprensa publicou um relatório do Comitê para a Proteção dos Jornalistas, instituição com sede em Nova York, que, segundo o qual o número de jornalistas presos é algo assustador: 145 em 28 países. China e Irã são os primeiros da lista. Foram cerca de 100 mortes em 33 países em 2010, são dados da organização não governamental Campanha Emblema de Imprensa. A organização também aponta que nos últimos cinco anos 529 profissionais foram assassinados.

Os números acima mostram que a liberdade de expressão e o direito de exercer a profissão sem perseguições estão cada dia mais perto de ser um lema ideológico.  Independente de se tratar de um país cuja política é baseada na democracia ou não, vivemos momentos de insegurança no campo do jornalismo. O ato de informar, divulgar, investigar, tornar público fatos relevantes à sociedade é algo perigoso.  O compromisso com a informação tem sido ameaçado pela tirania e crueldade de regimes ditatoriais. E isso não é privilégio de países em desenvolvimento ou sequer a China, grande potência econômica, estaria em destaque, bem como Irã, Tunísia, Cuba, Síria, Arábia Saudita, Vietnã, norte da África, México, Honduras, Egito entre outros.

É lamentável que o medo de perder o poder seja algo tão insano a ponto de sacrificar e torturar aqueles cuja missão é levar à grande massa conhecimentos dos fatos. Não cabe aos governantes julgar, mas sim informar. O cumprimento do dever está colocando o profissional de jornalismo em risco seja dentro ou fora do país de origem. O ato de informar é um ato de coragem.

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>> Veja também: O novo jornalismo-bundinha: o que você está sentindo?

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  • Marina Alano

    Infelizmente o jornalismo no Brasil não é tratado com o respeito e importancia que lhe cabe.
    Somo isso ao fato do diploma para exercer a profissão não ser mais exigido.
    Penso que informar com a verdade não é mais interessante para benefício de “alguns” poderosos.
    Ótimo post Manú ,,, fez juz a classe com maestria , parabéns

  • Carla de Andrade

    Já que abordaste o caso da funcionária da empresa de ambulâncias, que emitiu sua opinião sobre o chefe em seu Facebook, achei que faltou retomar a relação desse fato com a questão da liberdade de expressão. Mesmo que fosse para encerrar o texto fazendo uma relação com a situação mencionada no começo ou deixando um questionamento para ser pensado/desenvolvido, principalmente, no caso do exemplo dado envolver uma relação de trabalho, diferente dos exemplos relacionados à liberdade de expressão da imprensa.

    • Emanuela da Silva

      Olá, obrigada pela leitura mas essa era intenção trazer duas situações que envolvesse comunicação e liberdade de forma distinta com intuito de termos opiniões diferentes. Esta lacuna foi proposital tanto que estamos parlamentando sobre o assunto. Obrigada pela dica afinal de contas os vários olhares de um fato nos fazem crescer.