Por Sabrina Raupp

As empresas querem pessoas resilientes, que ajudem a organização a superar crises e adversidades, além de poder fazê-la enxergar a porta de entrada de novos mercados. Logo, o profissional que unir em si as características de resiliência e empreendedorismo aumentará suas chances de obter destaque na área em que atua. Esse foi o caso do fundador do Cirque du Solei, Guy Laliberté.

A origem do termo resiliência encontra-se no latim, tendo a palavra resilio o significado de retornar a um estado anterior, saltar para trás, voltar ao seu estado natural. Na Engenharia e na Física é utilizada para definir a capacidade de um corpo voltar ao seu estado normal, depois de haver sofrido uma pressão sobre si. Os experimentos que proporcionaram a descoberta do construto resiliência foram realizados a partir da aplicação de determinada pressão sobre uma mola, visando determinar sua deformação elástica; quando cessava a pressão, o material voltava à sua condição original. Mas, quando o termo foi adotado pelas ciências humanas, principalmente pela psicologia e, atualmente, pela administração, a característica de resiliente não termina quando volta-se ao normal. Para essa ciência é necessário ir além.

A resiliência nos negócios ganha nova urgência nos dias de hoje, seja pelo aumento da velocidade da mudança no ambiente de negócios, seja pelas pressões da concorrência globalizada. As oportunidades são grandes, mas os perigos maiores ainda. E eles podem vir a qualquer momento sem que se saiba o que são e de onde partiram.

Nesse contexto, Idalberto Chiavenato – autor de Você sabe o que é resiliência? – apresenta os cinco princípios da organização resiliente desenvolvidos pelo Gartner Institute. São eles: liderança, cultura, pessoas, sistemas e ambiente de trabalho.

1 Liderança – estabelece que aqueles que exercem essa função na organização devem determinar as prioridades e assumir os compromissos para instalar o processo para tornar a organização resiliênte.

2 Cultura – uma organização deve possuir uma cultura com base em valores positivos e motivacionais. Também, é essencial que os próprios funcionários tenham o hábito de se organizarem em grupos para compartilhar experiências, praticando a aprendizagem e buscando caminhos para otimizar os processos organizacionais.

3 Pessoas – o que torna uma organização o que ela é são as pessoas que trabalham nela. Por isso, para a organização ser resiliente, seus funcionários devem ser adequadamente selecionados, motivados, apoiados, equipados e liderados para ultrapassar qualquer obstáculo ou catástrofe.

4 Sistemas – estão ganhando agilidade e flexibilidade através da combinação de um modelo de ambiente de trabalho altamente distribuído com uma infraestrutura de Tecnologia da Informação robusta e colaborativa.

5 Ambiente de Trabalho – o nível de flexibilidade do ambiente de trabalho e a agilidade são essenciais para reduzir o risco de incidentes em uma empresa. Todavia, não é suficiente criar um ambiente altamente distribuído e conectado. É essencial avaliar constantemente a segurança e o conforto do local de trabalho.

CIRQUE DU SOLEIL

O Cirque du Soleil é constantemente citado como exemplo de empresa que se reinventou, abriu as portas de um novo mercado e se tornou vencedora. As citações ao Cirque du Soleil vão desde blogs, passando por livros – como em A estratégia do oceano azul – e chegando a ser foco de estudo em Harvad. Isso tudo acontece porque, em um mercado sem atrativos, uma empresa com 20 anos de existência atingiu uma receita muito maior do que a da mais tradicional empresa da indústria circense mundial, a Ringling Brothers and Barnum & Bailey Circus, conseguiu atingir em 100 anos.

Até inicio da década de 1980, o grupo teatral ‘Les Échassiers de Baie-Saint-Paul’, fundado por Gilles Ste-Croix, andavam em pernas de pau, faziam malabarismo, dançavam, cuspiam fogo e tocavam música em um vilarejo na costa norte do rio São Lourenço, em Quebec. Em pouco tempo, um dos artistas deste grupo, Guy Laliberté, fundou o Cirque du Soleil.

As turnês que tornaram conhecidas as peças apresentadas pelo grupo começaram em 1984, com o 450º aniversário da descoberta de Quebec. Para comemorar a data, os organizadores do evento convidaram o Cirque Du Soleil para realizar uma turnê pela província. Desde então, os espetáculos do Cirque du Soleil já foram vistos em mais de 250 cidades no mundo. A empresa que iniciou com 73 pessoas, conta, hoje, com mais de quatro mil funcionários, sendo que destes, mil são artistas. O trabalho realizado por essas pessoas já foi visto por mais de cem milhões de espectadores.

Ao fundar o Cirque du Soleil, Guy Laliberté conseguiu criar uma organização altamente lucrativa em um mercado decadente, cujo baixo potencial de crescimento era ponto de destaque nas análises estratégicas tradicionais. Outra questão que não posso deixar de mencionar é o fato dele ser caracterizado como circo, mas não concorrer com os circos tradicionais porque seu foco era outro. Tradicionalmente, a indústria circense objetiva cativar as crianças; já o Cirque du Soleil tem como objetivo o adulto. Portanto, ele não disputou por market share com o Ringling Brothers and Barnum & Bailey Circus, ele criou sua própria fatia de mercado. Deste modo, ocorreu o surgimento de uma nova concepção de espetáculo circense que foi planejado e produzido para mexer com o imaginário dos adultos.

O Cirque du Soleil abriu um novo espaço de mercado, um espaço que existia, mas era inexplorado. Seu público de interesse possuía características únicas e que não eram visionadas pelo mercado; por isso, a concorrência tornou-se irrelevante. Laliberté atraiu um grupo novo de pessoas que podiam pagar preços superiores aos cobrados pelos circos comuns. O Cirque du Soleil não tinha, e continua não tendo, palhaços e animais. Ele desconstruiu a idéia tradicional e a reinventou oferecendo a diversão e a energia do circo tradicional com a sofisticação e a diversidade artística do teatro.

Conhecendo a história do Cirque du Soleil, pode-se concluir que Guy Laliberté possuía a característica de resiliente. Em meio à crise vivida pelo mercado do entretenimento circense, ele conseguiu visionar um modo de superar as adversidades, explorou um novo mercado e obteve sucesso – visto que em aproximadamente 20 anos superou a renda da empresa ícone no ramo. Além da resiliência, Laliberté demonstrou ser um empreendedor: construiu uma organização sólida, de sucesso e que inovou investindo em criatividade e qualidade.

.

>> Veja também: Uma nova forma de gerenciar a carreira

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...