Por Gabrielle Duarte Moreira

Logo nos primeiros dias de janeiro, enquanto ia trabalhar, ouvi no rádio uma notícia que me deixou muito animada. A notícia dizia que “em entrevista à Folha de S. Paulo, publicada recentemente, o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, com o seu estilo sóbrio e preciso defendeu de forma inequívoca o fim das concessões de rádio e TV a parlamentares”.

Para aqueles que não compreenderam a dimensão deste “pequeno gesto”, eu explico com alguns dados: uma pesquisa realizada em 2005 comprovou que na época 40 geradoras filiadas à TV Globo (39,6% do total), 128 de todas as emissoras de TV (36,6%) e 1.765 de todas as retransmissoras de televisão do país (18,03%) eram controladas, direta ou indiretamente, por políticos. Outro estudo revelou que um terço dos senadores e mais de 10% dos deputados federais eleitos para o quadriênio 2007-2010 controlavam concessões de radiodifusão.

Isso é simplesmente uma ditadura camuflada. A partir do momento em que a imprensa, que deveria ser honesta e imparcial, está nas mãos de políticos, muitas vezes corruptos, nos arriscamos a ser corrompidos pelo que vemos e ouvimos.

Fui me informar sobre o assunto e vi que há leis a respeito dessas concessões. A Constituição proíbe aqueles que estão no “exercício de mandato eletivo” de ocupar funções de diretor ou gerente de empresa concessionária de rádio e TV, porém, esse controle não se dá de forma direta: há casos em que a esposa de um parlamentar é diretora de uma grande rede de TV, ou seus filhos, ou até mesmo seus netos. Definitivamente, a imprensa está impregnada no meio político.

Um clássico exemplo é o do já finado Antônio Carlos Magalhães, ministro das Comunicações do governo José Sarney. Ele foi um poderoso empresário do setor. A TV Bahia, afiliada da Rede Globo, não era, formalmente, do senador ACM, mas a gerente da emissora era mulher do parlamentar, e seus filhos e netos detêm o grosso das ações da empresa. O próprio José Sarney é um nome forte na área de Comunicação. Ele não é dono da TV Mirante, também retransmissora da Rede Globo, mas seus filhos são sócios da empresa.

Esta complicada relação é totalmente prejudicial à população em geral. Quando a imprensa é parcial em relação a assuntos políticos, só quem perde é o povo que fica no meio do fogo cruzado e não sabe nunca de que lado vem a verdade. É um absurdo que isso exista ainda hoje em um país democrático como o Brasil, onde políticos usam a liberdade de imprensa para advogar em causa própria. É uma atitude completamente retrógrada.

Li no site do Diário de São Paulo, que “Paulo Bernardo admitiu ser mais fácil o Congresso iniciar um processo de impeachment do presidente da República do que limitar o aberrante privilégio oferecido aos congressistas. Ele sabe que o mandato no Congresso é um dos melhores negócios do país. Além dos ganhos diretos e indiretos, os membros do egrégio Legislativo Federal podem participar da mamata das concessões e assim se reeleger indefinidamente graças ao poder das rádios e repetidoras de TV dentro dos seus currais eleitorais”.

Felizmente, há agora uma luz no fim do túnel. Como futura bacharel em jornalismo, espero que este projeto de lei siga adiante e que seja cumprido, sem ser driblado ou ignorado como muitos outros. Quando se trata de política, tudo pode acontecer. Agora, é torcer para que dê certo e que o “coronelismo eletrônico” tenha fim, e que a imprensa possa ter realmente a liberdade que é necessária.

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>> Veja também: WikiLeaks: saiba por que a quebra de sigilo já é uma realidade bem próxima.

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