Por Elvira Costa >>

Escorregões na escrita ficaram muito mais evidentes em tempos de redes sociais. Mas tanto, que hoje já se fala até em uma nova modalidade de desilusão amorosa: a desilusão “ortográfico-amorosa”, que acontece quando a animação com uma paquera vai embora ao sinal do primeiro erro de ortografia. Acontece… Certa feita, uma amiga falou indignada:
– Ele confunde mais e mas! Eu tentei colocar panos quentes: – Será que essa não dá para relevar, amiga? Essa do “mais x mas” muita gente comete.

Se nunca antes nos comunicamos tanto por escrito nas nossas relações pessoais e sociais, vide Facebook, Twitter, Instagram, WhatsApp e tantas outras redes, o mesmo vale para as relações profissionais: trocamos dezenas de e-mails todos os dias, mandamos mensagens por torpedo, estamos em grupos de trabalho no WhatsApp, isso sem falar nos casos em que a redação é parte essencial do trabalho do profissional, como ocorre com os redatores publicitários, assessores de imprensa, jornalistas, entre outros.

A revista Exame preparou uma lista com os 50 erros de português mais comuns no mundo do trabalho. A repórter, ao iniciar a matéria, foi implacável: “certas competências são obrigatórias para profissionais de qualquer área. O domínio do português é uma delas”. Imaginem para nós, que lidamos com a Comunicação Social.

Na lista dos 50 erros, uma dica importante sobre o verbo “mediar”, atividade tão comum na prática de RP. “Ele sempre media os debates” (errado). O correto é “ele sempre medeia os debates”. Isso porque “mediar” é conjugado como “ansiar”: eu anseio, eu medeio; ele anseia, ele medeia.

O jornalista Eduardo Martins, cuja obra mais conhecida é o manual de redação e estilo do jornal O Estado de São Paulo, escreveu um livro sobre os 300 erros mais comuns da língua portuguesa. É um livrinho de bolso, barato, serve como passatempo, para ler aos poucos ou mesmo para pesquisar alguma dúvida específica. Dos 300, escolhi alguns para dividir com os leitores do Comunicação e Tendências.

300 erros da LP

Eduardo Martins foi jornalista, faleceu em abril de 2008. Escreveu também o manual de redação do jornal O Estado de São Paulo. Imagem: extra.com.br

“Houveram” muitos problemas. Errado.
“Houve” muitos problemas. Certo.
“Havia” muitos consumidores insatisfeitos com aquele produto. Certo.
Haver, no sentido de existir, é invariável.
Ele é um dos que “pensa” assim. Errado.
Ele é um dos que “pensam” assim. Certo.
Não sou dos que “acham” isso. Certo.
A expressão “um dos que” faz concordância no plural.

Os Estados Unidos “invadiu” o Iraque. Errado.
Os Estados Unidos “invadiram” o Iraque. Certo.
Os Andes “cortam” a América do Sul. Certo.
Nome geográfico precedido de artigo no plural leva o verbo para o plural.

mim nao conjuga verbo

Tirou a prova dos “nove”. Errado. Tirou a prova dos “noves”. Certo. Faltavam os “oitos” no bingo. Certo. Números, quando substantivados, têm plural. Foi o que aconteceu com

O livro é para “mim” ler. Errado.
O livro é para “eu” ler. Certo.
O release é para “eu” escrever. Certo.
“Mim” não lê, porque não pode ser sujeito.

A “tijela” estava cheia de doces. Errado.
A “tigela” estava cheia de doces. Certo.
Tigela é com g e não com j.

Trabalhava em “relações-públicas”. Errado.
Trabalhava em “relações públicas”. Certo.
Formou-se em “relações públicas”. Certo.
Existe hífen na designação do profissional:

Era o relações-públicas da empresa.

Chegou “no” Brasil. Errado.
Chegou “ao” Brasil. Certo.
Chegaram “à” cidade. Certo.
Vai amanhã “ao” cinema. Certo.
Verbos de movimento exigem a, e não em.

Reside “à” Rua Augusta. Errado.
Reside “na” Rua Augusta. Certo.
Mora “na” Avenida Ipiranga. Certo.
Com residir e morar, use em e não a.

Conseguiu uma TV “a cores”. Errado.
Conseguiu uma TV “em cores”. Certo.
Não se diz TV “a preto e branco”, por exemplo.

O mercado fazia entregas “a domicílio”. Errado.
O mercado fazia entregas “em domicílio”. Certo.
A preposição é em: entregas em domicílio. Afinal, as entregas são realizadas em casa, no escritório, no apartamento, na empresa, etc.

Era, “a grosso modo”, o melhor. Errado.
Era, “grosso modo”, o melhor. Certo.
Explicou, “grosso modo”, como seria a reunião. Certo.
A locução não tem o a.

Vitamina C de “duas” gramas. Errado.
A vitamina C era de “dois” gramas. Certo.
“Duzentos” gramas de presunto. Certo.
Grama
, medida de massa, é termo masculino.

Lembrando o início do texto, a famosa troca entre “mas” e “mais” é a dica 223 do jornalista Eduardo Martins:

É pesado, “mais” tem agilidade. Errado.
É pesado, “mas” tem agilidade. Certo.
Alertou para o perigo, “mas” não o levaram a sério.
É mas que indica ressalva, restrição.

Confundir pode gerar desilusão, mas saber pode gerar afetos. Imagem: frasesparaoface.com

Confundir pode gerar desilusão, mas saber pode gerar afetos. Imagem: frasesparaoface.com

Entre os erros mais comuns está realmente a confusão entre “mas” e “mais”. “Mas” é uma conjunção que indica contraste de ideias (ex: estudou bastante, mas não passou), é sinônimo de “porém”, “todavia”. “Mais”, por sua vez, é um advérbio de intensidade.
Modifica o verbo, indicando uma circunstância (ex: preciso estudar mais para passar). É o oposto de menos (ex: preciso sair menos para poder estudar).

A fórmula para evitar situações constrangedoras com a escrita é dada desde os tempos de escola: cultivar o hábito da leitura, ler mais para escrever melhor. Além disso, revisar também ajuda. Já o Google pode tirar dúvidas em apenas alguns segundos.

Aproveitando o momento, vale lembrar que o bom senso é o melhor guia. Afinal, relações informais permitem informalidade, como nos grupos de amigos no WhatsApp, onde é válido até escrever em “Internetês” (com moderação). Entretanto, o contrário também é verdadeiro: relações mais formais, como as do ambiente corporativo, exigem o uso da norma culta da língua.

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