Por Marcela Serro Frasson >>

Há algumas semanas aconteceu em Porto Alegre o evento promovido pela Luxo Brasil, que trouxe para a cidade um dos maiores teóricos e especialistas mundiais em consumo e mercado de luxo: o filósofo francês Gilles Lipovetsky.

Foto: Marcela Serro Frasson

Após passagem por São Paulo e Brasília, Lipovetsky veio a Porto Alegre para uma palestra onde falou sobre a evolução do conceito de luxo ao longo da história, sua ligação com a moda, as práticas de marketing no mercado de luxo e o luxo emocional, entre diversos outros aspectos relacionados ao tema.

Profissionais que trabalham no segmento de luxo tiveram a oportunidade de conferir de perto o que Lipovetsky tinha a dizer sobre este mercado que, atualmente, está cada vez mais em evidência não somente no Brasil, mas no mundo. A seguir, um resumo das principais considerações feitas pelo filósofo:

A EVOLUÇÃO DO CONCEITO DE LUXO

Em todas as sociedades, sempre existiu uma forma de luxo, de excesso. No entanto, o conceito de luxo nem sempre foi o mesmo. Em tempos muito antigos, o luxo era algo extremamente restrito, privilégio de reis e faraós. O chamado “luxo moderno” apareceu somente no séc. XIX, com a alta-costura, e a partir daí foi ocorrendo a combinação da CRIAÇÃO – peça elaborada por um criador/estilista – com a INDUSTRIALIZAÇÃO – exemplares da mesma peça produzidos para serem vendidos nas lojas das grifes ao redor do mundo. Atualmente, nos encontramos na era HIPERMODERNA do luxo, a qual trouxe uma diversificação da própria noção do que é o luxo. Pode-se dizer, portanto, que hoje não existe somente um luxo, mas sim vários.

A DEMOCRATIZAÇÃO DO LUXO

O que vemos hoje, com a democratização do luxo, não é o fim nem a degradação dele, mas sim um NOVO LUXO. Isso significa que não é porque um produto é acessível (ex.: um perfume de grife) que ele não é luxo. Diversas grifes que no início vendiam apenas peças de vestuário, hoje possuem extensões de marca que incluem acessórios, perfumaria, maquiagens, cosméticos, entre outros. Tomando-se como exemplo o caso dos perfumes, cada marca hoje lança, em média, 1 nova fragrância por ano.

LUXO E MARKETING

Lipovetsky salientou que as marcas de luxo, hoje, precisam encarar e entender o marketing de seus produtos, principalmente considerando aqueles de venda para a massa. Antigamente, para as grifes de luxo francesas, fazer propaganda dos produtos era considerado algo vulgar. Surpreendentemente, hoje o setor de luxo é o que mais gasta com comunicação. Tome-se como exemplo o histórico desfile realizado na Muralha da China, pela Fendi, para sua coleção de Inverno 2008, onde a grife investiu supostos 10 milhões de dólares. Outra curiosidade: a Cartier foi a primeira marca de luxo a anunciar o preço de um produto em uma propaganda. Antes da grife tomar a iniciativa, anunciar o preço era algo impraticável neste mercado.

MUDANÇAS NO COMÉRCIO DAS GRIFES

Com a expansão do mercado de luxo, o comércio também foi crescendo. Nos anos 70, a Louis Vuitton possuía apenas duas lojas no mundo inteiro. Hoje, a grife tem mais de quatrocentas. Além disso, nas últimas décadas, as grandes marcas de luxo criaram as suas flagship stores, ou lojas-conceito, no mundo todo. Consideradas templos de consumo, estas flagship stores viraram até mesmo pontos turísticos para os viajantes.

LUXO E MODA

O que se observa atualmente é que cada vez mais o luxo se aproxima da moda. Profissionais com formação e experiência em moda passaram a ser contratados pelas marcas para mudar a imagem do luxo, rejuvenescendo-o. Aquelas que antigamente eram consideradas marcas para pessoas de mais idade, hoje estão ligadas à moda e à jovialidade.

LUXO ESTATUTÁRIO X LUXO EMOCIONAL

A antiga teoria defendia que o consumidor de luxo não fazia a compra para si mesmo, mas sim pela sua imagem social, na busca por admiração, prestígio e reconhecimento. No entanto, Lipovetsky salientou que essa realidade está mudando. Ele diz que atualmente muitas pessoas estão consumindo luxo relacionando-o à sua própria individualidade, buscando seu próprio prazer, devido aos sentimentos e sensações que o luxo pode proporcionar. Portanto, o luxo atual é um luxo mais EMOCIONAL, ligado à experiência e, especialmente, ao bem-estar do próprio indivíduo, mesmo aquele que não faz parte da classe social mais elevada.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...