Por Felipe Leduino

Em um dia desta semana passada, passo na frente da TV no início da manhã, meio acordado ou ainda dormindo, e vejo a Ana Maria Braga recebendo um cidadão que havia perdido parentes e amigos na tragédia dos temporais no Rio de Janeiro, nas quais acredito todos estarmos sabendo do que se trata. Triste, muito triste. Normalmente é difícil trazer alguém assim para a frente das câmeras, ainda mais em estúdio. Mas parece que há pessoas que não fazem ideia do que estamos falando; gente em um sono muito mais grave que o meu. O exemplo é a dita apresentadora, que faz a seguinte pergunta ao sobrevivente: “O que você está sentindo agora?”

Esta simples interrogação é o retrato do papel distorcido da imprensa neste e em outros tantos fatos atuais. Além de ser fraca e clichê (jornalisticamente falando), ela é desrespeitosa com o entrevistado. Ele perde familiares e amigos de uma forma atípica e violenta, e alguém ainda pergunta “o que você está sentindo?” Não fosse o cérebro ainda em choque, a ironia seria bem-vinda como resposta.

Seguindo este exemplo, as emissoras de televisão partem para o mesmo jogo. Montam campana nas áreas atingidas pela catástrofe, invadem as casas cheias de lama e fazem as mesmas perguntas. Não poupam desabrigados e desalojados da irracionalidade de um trabalho que virou instintivo e impulsivo – profissão que era pra ser tão elaborada.

Em outras épocas, a imprensa sabia do seu papel na sociedade diante destes fatos. Não digo em tempos de Henry Stanley, mas falo de vinte anos atrás. Ao invés de apenas passar a mão sobre a cabeça do cidadão e chorar suas dores, o jornalista lutava por ele. Ia onde se encontravam os donos do poder, interrogava prefeitos e governadores, argumentava as causas do acontecimento, exigia uma solução rápida e imediata. Mas de alguns anos para cá, vestiu uma máscara coxinha e faz as perguntas que qualquer pessoa faz – questões improvisadas, feitas de qualquer maneira, apenas para rechear o tempo que estará no ar, iludindo o telespectador.

Assisti Band, Globo e Record nestes últimos dias, procurando uma matéria que não fosse a de simplesmente contar os mortos e perguntar aos atingidos o que eles estavam sentindo. Ato falho. Não ouvi nenhum questionamento sobre condições de habitação, ou sobre os bairros erguidos em áreas incapazes de suportar tal peso sem sustentação, ou talvez sobre o desmatamento e construção de cidades sobre a região da Mata Atlântica. É muito difícil tomar esta posição? Ou o que há é uma (terrível) confusão sobre o conceito de informar a população? Posso até arriscar minhas suposições, feitas diante de tudo o que consigo enxergar. Acho que é de meu direito.

1 – Diante de toda a reorganização que o país está sofrendo na última década, resultante do acentuado crescimento que enfim chegou, parece que os problemas estão sumindo. As condições de vida melhoraram, o desemprego caiu, a miséria está se erradicando, e a imprensa não protesta mais. Virou acomodada, tranquila e morna, sem a ferocidade e a tenacidade que possuía há 20 anos. Não nota que os problemas agora são outros, de igual importância, e que ainda necessitamos dela para resolvê-los. Mas isso muda de patamar ao serem censurados, quando parecem ter lampejos de lucidez após terem o rabo pisado.

2 – A má qualidade do novo jornalismo. Agora me ponho de certa forma do outro lado do muro, argumentando contra a eliminação do diploma necessário para ser jornalista. Realmente, acredito que é indispensável a qualificação acadêmica e a lapidação de um perfil jornalístico instigador na universidade. Além da volta da exigência do curso, deve-se exigir uma maior qualificação nas universidades, com professores mais vivenciados e conhecedores do verdadeiro papel do jornalismo. Com tudo isso, talvez eles façam com que os alunos não saiam da aula preparados apenas para apresentar um programa de variedades.

O fato é que o jornalismo está se tornando uma profissão comum, sem porquê. A face questionadora que tanto conhecíamos não aparece mais, embaçada pelos anos de desinteresse com o modo que a mensagem está sendo passada ao receptor. Assim se sentem ameaçados pela popularização da geração de informação – caracterizada pela informação rápida pela Internet e pelos blogs opinativos (como este, talvez), que colaboram de uma forma diferenciada para que os fatos cheguem de uma maneira diferente da convencional à população. E, convenhamos: se o diferenciado está ganhando terreno, é porque o convencional já não vinga mais. Pelo menos não da maneira como é.

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  • Emanuela da Silva

    Colega , concordo em partes com seus argumentos no entanto, não podemos esquecer que os repórteres que estão fazendo as coberturas são apenas funcionários. Os grandes responsáveis pela nova face do jornalismo como você afirma são os donos das concessões e a forma desigual para a obtenção da mesma. São eles os empresários muitos da classe políticas que detém o poder editorial nacional e não o jornalista . Claro que as perguntas que ouvimos são no mínimo sem propósito aliás aumenta os números na audiência.

  • Estou com preguiça de ler. (na verdade tô trabalhando e o texto é muito gde) Mas dando aquela lida na diagonal (bem o tipinho de gente preguiçosa, ou que tá trabalhando, paradoxos dessa vida) vi que é um assunto que sempre me interessou, da pior maneira possível. Sempre senti asco dessa exploração das vítimas em prol do sensacionalismo. Mas daí sempre vem aquela briguinha: tu fala isso pq é publicitária, publicitários fazem bem pior, incitando o consumo desenfreado. A rixa eterna de jornalistas/publicitários.
    Enfim, qdo tiver um tempinho, leio melhor e comento melhor.

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