19
mar
2014

O ócio, o livro e o consumo

Por Elvira Costa >>

livraria laselva

Ponha um cidadão ocioso diante de uma opção atraente, fácil e barata de consumo e a compra é quase inevitável.


Ócio: 1. Descanso de trabalho; folga.
2. Lazer, vagar.
Miniaurélio.

O que você procura fazer quando não tem nada para fazer? Em fevereiro, estive em São Paulo para o concurso do TRT (a concorrência foi tão grande que a impressão que tive é que o Brasil inteiro estava lá para isso – risos). Só para o cargo de técnico candidataram-se 67.000 pessoas para cada vaga. Depois da prova, visitei o MASP, perambulei um pouco pela Paulista e depois tomei o caminho de volta a Salvador. O voo tinha conexão em Confins.

Aeroporto em Minas Gerais lo-ta-do. Muita gente sem ter o que fazer. Alguns preferiam o ócio, sentar, esperar. Muitos passavam o tempo nos seus telefones ou notebooks. Diante de tanto nada para fazer, no piso térreo do terminal de passageiros, havia apenas uma opção de consumo além da lanchonete: a loja Laselva. Assim que entrei, logo a vi, convidativa, oferecendo o passatempo. Pensei: vou tomar um café e depois dar só “uma olhadinha”. Não vou comprar. É só a “olhadinha”.

Comprei. Nada demais. Apenas dois livrinhos que, se não me falha a memória, custaram menos de R$20,00 cada um. Depois pensei no bom negócio que era aquele. Excelente ponto de venda, única opção de distração para tanta gente ociosa. E mesmo quem entra só para dar uma olhadinha pode acabar comprando alguma coisa. Ocasionalmente, pode acontecer de você nem ler o que comprou, como aconteceu comigo quando de outra visita a uma livraria Laselva, no aeroporto de Congonhas. Comprei “Marketing para o século XXI” (Kotler) e “Click” (Bill Tancer). Do primeiro ainda li alguma coisa, mas o segundo continua na fila de leituras, na estante.

Hoje existem livros muito baratos, existem clássicos muito baratos, em versão de bolso, e existe muita porcaria barata também. Assim, o livro, antes até proibido, já é símbolo de consumismo para algumas pessoas. Minha mãe, que se diz não consumista, tem uma biblioteca de mais de 2.000 livros. Eu já disse que ela é consumista sim e que a prova disso é a biblioteca. Eu tenho, comprados por mim, 137. Esse ano prometi não comprar mais nada até ler tudo da minha pequena biblioteca. Mas já quebrei a promessa.

Ponha um cidadão ocioso diante de uma opção atraente, fácil e barata de consumo e a compra é quase inevitável. No caso da Laselva, para quem não quer gastar mesmo, em nenhuma hipótese, mas precisa passar o tempo, ainda há a opção do jornal.

Em tempo: na Laselva do aeroporto de Confins comprei “Brasil: Terra à Vista!”, do aclamado Eduardo Bueno. Excelente escolha, pois o conteúdo é interessantíssimo. A outra escolha foi “Os 300 erros mais comuns da língua portuguesa”, de Eduardo Martins. Livro de bolso, possibilita ler uma dica por dia. E dá para o ano todo. Dá também para abrir ao acaso, como um livro de oração, uma pílula diária de português. Sim, comprei as 300 dicas inspiradas nos textos que tenho escrito aqui para o blog e depois compartilharei algumas dicas com vocês. Ambos foram uma pechincha. Consumi. Quebrei a promessa. Mas gastei pouco.

Observação: como um excelente ponto de venda não é garantia de sucesso do negócio, a Laselva passou por uma crise iniciada em 2010. Em 29 de maio de 2013, de acordo com matéria da Folha, entrou com pedido de recuperação judicial. Desconheço detalhes. Mas desejo que, quando ocorrer, a crise passe. E que haja sempre uma livraria onde passar o tempo.

Foto: livraria Laselva do aeroporto de Congonhas/Lalo de Almeida/Folhapress.

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