Por Felipe Uhr >>

Olá! Confira a continuação da entrevista com a RP e professora Andreia Athaydes. A parte 1 desse post você acessa aqui.

Comunicação & Tendências – Alguns conselhos regionais, atualmente, estão obrigando as assessorias de imprensa a preencherem vagas com profissionais de Relações Públicas, que em muitos casos eram ocupadas por jornalistas. Este profissional tirou mercado do RP? Como tu observa essa situação?
Andreia Athaydes – Essa é uma briga antiga que não vai levar a nenhum lugar. Na verdade, os conselhos são autarquias federais de fiscalização profissional onde o governo libera que a categoria exerça o papel do Estado, ou seja, fiscalizar essa legislação. Se os conselhos não fizerem o que está na legislação eles podem ser penalizados por não estarem fazendo o seu papel. Todos deveriam fazer essa fiscalização. O que está ocorrendo é que existe um processo, há mais de 20 anos, de atualização da lei das Relações Públicas que quando foi redigida foi feita de uma forma muito rápida, tentando atender uma demanda específica. Na época, a Associação Brasileira de Relações Públicas (ABRP) entendia que a profissão ser regulamentada seria positivo para o Brasil, e foi feita uma minuta básica e rápida, sem muitas discussões. Essa minuta acabou virando a lei, e sabe-se que precisa ser atualizada. É onde entra o processo de flexibilização, em que a grande discussão vem sendo a desregulamentação da profissão, onde não se precisa do registro. Na época, meados dos anos 90, a categoria não quis acabar com o registro, mas se entendeu que a lei precisava ser atualizada e desde então isso não ocorreu. Não conseguimos avançar porque a própria categoria ainda não entendeu de que forma fazer essa interface com o colega de jornalismo e de publicidade também. Quando a lei foi feita, a Assessoria de Imprensa não era bem vista pelos próprios jornalistas, fato historicamente conhecido. Mas isso mudou. E, infelizmente, o jornalismo também não teve um aumento no números de veículos de comunicação proporcional ao aumento do número de cursos. Não havia mais postos de trabalho, e o lugar mais natural para que o jornalista que não conseguiu emprego na imprensa começou a ser as áreas de comunicação das organizações – que começavam a compreender o papel da comunicação para elas.

C&T – E esse processo atrapalha o profissional de RP?
A. A. – Acho que não. Já tive a oportunidade de trabalhar em assessorias de comunicação completas, com RPs, publicitários, jornalistas e fotógrafos e posso te dizer que quando a gente consegue formar uma equipe com todos os saberes da Comunicação temos menos chances de errar e mais chances de mandar a mensagem correta para as pessoas. É por isso que acho que o jornalista não atrapalha e sim é um parceiro do RP. Na verdade é preciso um entendimento dos profissionais para que possam trabalhar em conjunto, em que um sabe até onde pode ir e o outro começar. Falta um pouco essa humildade. O conhecimento, hoje, precisa cada vez mais de grupos disciplinares que às vezes não são só da Comunicação. Até mesmo outros profissionais  têm uma outra visão bastante interessante.

C&T – A flexibilzação do registro para ser profissional de RP vai ajudar ou atrapalhar?
A. A. – Não só eu como muitos profissionais com quem trabalho e discuto isso nos conselhos federais de RP, de diferentes estados do país, que também atuam tanto na área acadêmica como no mercado de trabalho, têm a opinião de que a flexibilização é válida. Claro que isso, dentro de critérios onde o profissional formado em Jornalismo ou Publicidade, por exemplo, tenha uma pós-graduação na área de RP ou que usaram como objeto de pesquisa as Relações Públicas e que no decorrer da sua carreira começaram a entender isso. Então, como um profissional que se qualificou na área de Relações Púbicas e que estudou isso não possa atuar ou representar a área? Claro, há grupos que não concordam com essa flexibilização, mas nós, de forma geral, concordamos.

C&T – E de que forma deve ser feita essa flexibização para que não ocorra de forma banal?
A. A. – A proposta cuida para que não haja banalização. Estão sendo discutidos critérios. O primeiro é que o bacharel em Relações Públicas tem automaticamente o seu registro, pois se graduou numa faculdade reconhecida pelo Ministério da Educação. O segundo critério é colegas que se formaram na área de Comunicação e que fizeram pós-graduações com assuntos de Relações Públicas.

C&T – O número de relações-públicas vem caindo no Brasil em contramão à área que vem aumentando. Tem alguma explicação para isso?
A. A. – Na verdade não.  Para se ter essa resposta é preciso uma pesquisa e um levantamento mais apurado para entender esse processo. Sou professora há 20 anos e gestora de universidade há 19, e eu observo que há uma oferta de cursos muito maior que há algum tempo. O jovem tem muito mais opções e isso pode ser uma causa.  Hoje há cursos de jogos digitais, por exemplo, que não existiam. Também há cursos tecnólogos de dois anos, que são escolhidos ao invés de cursos de quatros anos, como Relações Públicas. Nesse contexto, isso pode ser um dos motivos, já que há cursos mais atrativos para um jovem de 19 anos.

C&T – O que ainda precisa ser feito nos cursos de RP para que os alunos saiam satisfeitos?
A. A. – Na verdade, os cursos evoluíram muito suas matrizes curriculares. Acho que o mais importante é que o professor deixe claro para o aluno o seu lugar no mercado para que ele compreenda que aquilo que está estudando é importante para onde ele vai. Se o professor conseguir fazer essa parceria mercado-academia, na qual eu trago o mercado para a sala de aula, isso já faz com que o aluno enxergue isso.

C&T – Qual o recado para os profissionais e futuros profissionais de Relações Públicas para se tornarem exemplo?
A. A. – É preciso saber conciliar interesses no sentido de desenvolver todos. Para que haja uma convergência de interesses o RP deve dialogar com esses pontos divergentes e dentro deles achar um em comum para que todos cresçam. Ele tem que entender que no mundo não há uma verdade e sim várias. É importante ouvir, e dessas coisas que eu ouvi achar o ponto para o crescimento. O outro conselho é o que eu digo para qualquer profissional: o mundo está muito rápido, então os conhecimentos precisam ser compartilhados. O jovem que sai da faculdade não pode achar que está completamente pronto. E não estou falando especificamente de uma pós-graduação, e sim acompanhar o que anda acontecendo. Participar de eventos, ler publicações da área, participar de grupos de discussões. Temos que ir atrás. Muitas vezes isso não ocorre, às vezes por essa correria do dia a dia falta a troca de conhecimento entre os profissionais de diferentes empresas.

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