Por Maria Alana Brinker >>

Trabalhar no exterior é o sonho de muitos brasileiros. E quando ouço comunicadores falando que vão largar tudo e tentar a vida fora do país porque o mercado de trabalho no Brasil é ruim e paga pouco, penso em quão arriscado isso pode ser e se, realmente, as ofertas de trabalho lá fora são muito melhores que as daqui ou se apenas idealizamos um mercado superior por causa da qualidade de vida que outros países oferecem.

A empreendedora Fernanda Vargas

A empreendedora Fernanda Vargas

Para ajudar a esclarecer esta dúvida, nada melhor do que conversar com brasileiros que vivem na pele o ônus e o bônus dessa mudança. Então conversei com a dona da empresa Juice Cool Hunting, a publicitária Fernanda Vargas. Formada em 2008 pela UFRGS, ela é especializada em pesquisa de tendências e design, mora em Milão (Itália) desde 2014 e contou como está sendo o desafio de empreender na Europa. Confira! 😉

Comunicação & Tendências – Qual sua inspiração para empreender na Europa?
Fernanda Vargas –
Logo que vim para a Itália, minha mãe veio comigo e passeando pelas ruas ela percebeu que muitas das vitrines e tendências poderiam ser replicadas no Brasil, mas que demoram para chegar aí. Foi então que comecei a me questionar: por que essas informações são acessíveis somente através de veículos como a Vogue e não de outra forma mais simples e rápida? Decidi fazer pesquisas de tendências na Europa e vender para pequenas e médias empresas no Brasil, que não têm tempo e nem dinheiro para mandar funcionários para cá ou comprar relatórios de tendências. E fundei a Juice Cool Hunting, uma empresa com foco em venda de tendências. Agora estou planejando roteiros para quem deseja fazer visitas em pólos de Moda e Design de Milão, conhecer empreendedores daqui e ter acesso a tendências através de uma imersão, concentrando em 2 semanas o que um cool hunting faz o tempo todo. O objetivo é entender as macro tendências de comportamento.

C&T – Como e por que você decidiu largar tudo no Brasil e morar na Itália?
Fernanda Vargas –
 Antes de decidir ir para a Europa trabalhei na área comercial de uma corretora de investimentos. Gostava do que fazia, mas a empresa estava crescendo e o perfil do meu cargo iria mudar de comunicador para economista, o que seria ruim para mim. Como, neste mesmo período estava para ser aprovada a minha cidadania italiana, e o processo exigia que eu fosse à Itália fazer meu passaporte, pedi demissão e decidi ficar uns meses lá para descobrir conhecer novas culturas, abrir a minha mente e descobrir o que faria na minha carreira dali em diante. Na Itália conheci pessoas de várias nacionalidades, inclusive brasileiros, e após alguns meses decidi tentar a vida neste país.

C&T – O início foi difícil? Você conseguiu trabalho na área de Comunicação?
Fernanda – Foi. A primeira coisa que fiz depois de conseguir a cidadania foi procurar um emprego. Não falava italiano, mas consegui trabalho num restaurante onde alguns brasileiros já atuavam. Eles me receberam muito bem, e nesta experiência tive a oportunidade de aprender italiano e entender como é a dinâmica social neste país – algo que foi essencial para mim. Os italianos são muito fechados com quem não é da nacionalidade deles. O mercado é muito fechado para estrangeiros (a cultura local não te acolhe muito), e se você não fala bem a língua local nenhum empregador te dá uma chance. Na Itália não adianta ser fluente em inglês e não ser fluente em italiano, porque 80% da população não fala inglês. Além disso, eles têm um perfil mais conservador, o que também os torna mais resistentes a encarar diferenças culturais.

C&T – Você acha que o mercado de trabalho na Itália, para comunicadores, é melhor que no Brasil? Por quê?
Fernanda – 
Em termos de remuneração, a não ser que você trabalhe em cargos de C levels, você não tem uma diferença de remuneração muito significativa da do Brasil. A diferença da Europa é que as coisas (produtos e sPensando em trabalhar na Europa? Confira entrevista com uma publicitária que empreendeu láerviços) têm preços mais proporcionais aos salários. Por exemplo, você consegue ter uma vida confortável recebendo €1500 (Euros) por mês. Com relação ao estudo, não existe a cultura de se trabalhar enquanto se está na faculdade. Os jovens só estudam e muitos acabam se formando sem terem experiência. Poucos são os cursos que têm estágio obrigatório, e quando têm são só no final. Isso faz com que os profissionais sejam sustentados pelos pais por bastante tempo (quase que até os 30, em alguns casos), o que rende um apelido para eles bem usado por aqui: mamones, que significa jovem que vive debaixo da proteção da mãe.

C&T – Como são as agências de publicidade na Itália?
Fernanda – 
A publicidade italiana é meio fraca. Muitas agências de Milão, por exemplo, são filiais de grandes agências de outros países. As italianas são bem menores e costumam trabalhar com clientes locais.

C&T – Na sua opinião, há diferenças entre a publicidade italiana e a brasileira? Se sim, quais?
Fernanda –
Sim. A brasileira é bem mais desenvolvida, tem um mercado maior e a nossa cultura estimula mais a criatividade e a diversidade. Já na Itália a população tem outro perfil: a maior parte é mais velha, conservadora, e a publicidade italiana replica muito as referências da Inglaterra e dos EUA. Também entra muita coisa da Alemanha e da Ásia aqui.

C&T – Você aconselha outros comunicadores brasileiros a buscarem oportunidades de trabalho na Europa?
Fernanda – 
Se tiverem o visto para trabalho e procurarem um bom head hunter (super especializado) sim, pois é uma experiência fantástica. Mas se forem buscar emprego por conta própria, uma dica é procurar um coaching para entender as dinâmicas do trabalho. Tenho uma amiga que também mora aqui e que depois de 3 anos procurando emprego na área de Comunicação conseguiu após fazer um trabalho com um coaching e perceber que precisava mudar sua postura e se apresentar de maneira diferente para os entrevistadores italianos.

C&T – Qual o seu recado para os comunicadores brasileiros que desejam trabalhar fora do país?
Fernanda –
Meu conselho é, antes de tudo, estudar bem o mercado do país e as questões culturais. Na Europa, por exemplo, a vinda dos refugiados e o fato da Inglaterra estar em processo de saída da União Europeia tornaram mais difícil para os estrangeiros conseguirem entrar no mercado de trabalho. Então, para evitar frustração planeje bem esta mudança. Países como Espanha, Itália e França não falam tanto o inglês como em outros países, por isso, aprenda o idioma local.

Fonte da imagem: Pixabay.com

 

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