Por Elvira Costa >>

Gabriel García Márquez estudou Direito e Ciências Políticas, mas preferiu ser jornalista e escritor.

Jorge Amado e Gabriel García Márquez. Essa semana tem sarau no céu!

Jorge Amado e Gabriel García Márquez (Essa semana tem sarau no céu!)

Ainda sou daquele tipo de gente que empresta e toma livros emprestados. Algumas vezes, eles não voltam, tal como aconteceu com o meu “Casos e Coisas”, de Duda Mendonça. Algumas vezes, eu não devolvo, tal como aconteceu com “Amor é prosa, sexo é poesia”, de Arnaldo Jabor. Mas, mesmo que nem todos voltem, ainda é muito bom emprestar livros. Você opina, depois pergunta se a pessoa está gostando, cobra a devolução… Às vezes, esquece. Mas você já leu e, no final, o saldo sempre será positivo.

Nessa brincadeira de emprestar e tomar livros emprestados, eu conheci muitos personagens bacanas. Certa vez, a pessoa que me emprestou um romance disse o seguinte: “é o melhor livro que já li”. Naquele  dia, eu tomava emprestado “Cem anos de solidão”, do hoje saudoso Gabriel García Márquez. Gabriel nos deixou. Todo mundo já sabe, até porque nas redes sociais não se falou em outra coisa. Passei meses com esse livro, indo, voltando, tomando nota, tirando foto… Passei um carnaval com o Gabriel e a sua história. Quando chegou a quarta-feira de cinzas me deu uma saudade!

Tem gente que lê de forma industrial, eu não. E esse romance tem enredo sinuoso, às vezes dá um nó, com tantos Aurelianos, filhos e netos. E guerras. O coronel Aureliano Buendía promoveu 32. Perdeu todas. “Ali, tirou a camisa, sentou-se na beira do catre e, às três e quinze da tarde, desferiu um tiro de pistola no círculo de iodo que o seu médico particular lhe pintara no peito”. Sobreviveu à tentativa de suicídio o nosso herói tresloucado, indo morrer muito tempo depois, de morte morrida, velho e solitário.

Ilustração de Carybé

A solidão da América Latina – Ilustração de Carybé

Mas o meu personagem predileto é Pietro Crespi. “A casa importadora enviou por sua conta um técnico italiano, Pietro Crespi, para que armasse e afinasse a pianola. (…) Certa manhã, sem abrir a porta, sem convocar nenhuma testemunha para o milagre, colocou o primeiro rolo na pianola, e o martelar atormentador e o ranger constante das ripas de madeira cessaram num silêncio de assombro, diante da ordem e da limpeza da música. (…) Na sala de estar, contígua à de visitas, Pietro Crespi ensinou-as a dançar. Indicava-lhes os passos sem tocá-las, marcando o compasso um metrônomo sob a amável vigilância de Úrsula, que não abandonou a sala um só instante enquanto as filhas recebiam as lições. (…) ‘Você não precisa se preocupar tanto’, observava José Arcadio à sua mulher. ‘Esse sujeito é maricas’”.

A passagem de Pietro Crespi pela família Buendía gerou consequências nefastas, bem distantes da previsão do patriarca José Arcadio, mas prefiro não falar delas, senão esse texto não acaba. Aqui, o único desejo é prestar uma pequena homenagem, dentre tantas as que já fizeram.

Ah! Olha que interessante essa brincadeira de emprestar e tomar livros emprestados: pode acontecer de você ganhar um presente, como eu ganhei. Aliás, não é à toa que “Cem anos de solidão” foi traduzido para mais de trinta idiomas. E na edição do meu livro emprestado, ainda tinha ilustração de Carybé. Uma obra-prima! Gabriel García Márquez estudou Direito e Ciências Políticas, mas preferiu ser jornalista e escritor. Em 1982, ganhou o Nobel de Literatura pelo conjunto da sua obra. Nos seus últimos anos de vida (quem poderia imaginar tamanha ironia!) estava senil e lutava contra a perda de memória.

Fonte da foto: https://www.facebook.com/pages/Jorge-Amado/49408359282

Fonte da ilustração: http://www.revistabula.com/671-cem-anos-de-solidao-o-livro-que-criou-uma-geracao-de-leitores/

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