06
maio
2011

Quem você é nas redes sociais?

Por Greyce Vargas >>

Nietzche, ao escrever suas memórias em Ecce Homo, diz: “parece-me indispensável dizer quem sou”. As grandes questões filosóficas continuam presentes no entorno psicológico cotidiano do homem, e mais do que trazê-las à tona, queremos respondê-las, encontrar meios para explicar quem somos, porque estamos, para onde vamos. Nietzche não apenas verbalizou como imprimiu lá em 1888 essa vontade de dizer quem era.

Anos mais tarde, McLuhan falou da necessidade humana de fazer extensões de seu corpo, de potencializar nossas possibilidades comunicacionais. Queremos informar do nosso jeito, queremos dar a sua versão da história, nem que seja a nossa própria história. Nos tornamos tão bons nisso que nunca tantos usuários produziram conteúdo para as mídias tradicionais e alternativas como agora. Somos grandes personalidades. E não sou eu quem disse isso, foi a revista Time que, em 2006, escolheu eu, você e todos nós como personalidade do ano. Leia a notícia na íntegra aqui: http://www.time.com/time/magazine/article/0,9171,1569514,00.html

Mas antes de contar a história do outro, precisamos sustentar o “eu” como essa tão importante personalidade. E é para isso que estão aí as redes sociais. Tenho pensado muito sobre o assunto, sobre como responder as tão faladas “questões filosóficas” através das redes. No Twitter, falamos sobre o que estamos fazendo, sobre o que está acontecendo. Queremos ser os primeiros, os mais engraçados, os mais sábios, mas antes de tudo queremos dizer porque estamos, porque escolhemos, o que é importante para nós. Importante apontar através do meu dedo, do seu dedo, do dedo daquele que detém a conta. Nunca publicamos tantas fotos, tantos textos, nunca escrevemos tanto sobre nós mesmos. Afinal, é indispensável dizer quem somos.

Lá estão Orkut e Facebook. O primeiro cito por uma realidade brasileira, mas o segundo é quem “domina” o campo das redes no mundo nesse momento. Quem sabe, quando você estiver lendo este post surja uma outra rede e migraremos todos para ela?

É nesse ambiente que mostramos o nosso eu, ou pelo menos o eu que queremos apresentar ao mundo. Aquele verso da música da banda Engenheiros do Hawaí “somos quem podemos ser” foi derrubado. Somos, hoje, quem queremos ser. Somos aquele que está ali apresentado. “Nesse movimento, transformam-se também os tipos de corpos que são produzidos no dia a dia, bem como as formas de ser e estar no mundo que são ‘compatíveis’ com cada um desses universos”, afirma Paula Sibilia no livro O show do eu (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008)

Mais do que estar no mundo, é preciso ser e é preciso mostrar onde se está e quem se é. Encontramos novas formas de responder as questões que marcam a filosofia do cotidiano e queremos mais. Há uma formação espontânea de identidade, há importância do ambiente, das pessoas, mas há, sobretudo, deslocamento histórico do eixo em torno do qual se constrói o que é cada sujeito, e somos nós que, conscientemente, desenhamos isso. Não é o obscuro de si mesmo que mostramos na internet. Fica claro que perseguimos a visibilidade no sentido da importância da personalidade, tal como a Time premiou. Essa é a nova via para ser alguém na sociedade atual.

Eu me pergunto, mas não estou pronta para responder: Que papel tem os “outros”, que podem ser entendidos como aqueles que constroem e possibilitam a existência dessas redes para que todos possam ser e estar?

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  • Oi, Greyce. Ótimo ponto. Minha opinião é que, como na vida real, também aqui, na virtual (ou digital?), tudo é vaidade. Comparamo-nos o tempo todo. Nascemos para a competição. E ao nos comparar, queremos, como disseste, “ser os primeiros, os mais engraçados, os mais sábios”. E isso nem sempre é ruim, não. É ruim quando a vaidade se transforma em inveja.
    Em suma, o melhor é quando a competição se dá entre nós e nós mesmos. Para evoluir sempre. Minha contribuição também está no artigo “Eu acho que as mídias sociais darão certo”, no meu blog (http://bit.ly/ij4ukr). Abraço!

    • Gostei muito do teu texto também, Juliano. Li agora. Sou muito otimista com as internet e suas possibilidades, por vezes tenho que me policiar para não ser positiva demais. No caso do eu, acho um movimento interessante, talvez agora as pessoas estejam encontrando elas mesmas e testando outros eus que gostariam de ser, coisa que não era impossível antes, mas não era tão visibilizado. Continuo pensando nisso…

  • Oi Gleyce…..muito bom post….Um ponto que por vezes pode parecer muito filosófico, mas se aplicarmos os questionamentos em nosso cotidiano veremos até que ponto somos transformados por esta nova dinâmica possibilitada pela internet e pelas mídias sociais. Proponho um aprofundamento em seu questionamento, perguntando sobre como nossa “existência” nas redes sociais virtuais tem afetado nosso modo de agir e até a forma que vemos o mundo, até que ponto o real e o virtual se separam??

    • Greyce Vargas

      Oi, Ramon!

      Que bom que gostaste do texto. A indagação que trazes é ótima, não tinha ainda pensado nela.

      Obrigada.