22
ago
2016

Queremos uma sociedade de Homens de Lata?

Guest post por Nathalia Oliveira >>

Vivemos em uma sociedade informatizada e com esse conceito em crescente. Internet no desktop, no notebook, na televisão, nos celulares, nas coisas. Sim, é a era da “Internet das Coisas”, conceito que se refere à revolução tecnológica que tem como objetivo conectar todos os itens usados no nosso dia a dia e que está cada vez mais próxima do que já vivemos.

JOAQUIN PHOENIX as Theodore in the romantic drama "HER," directed by Spike Jonze, a Warner Bros. Pictures release.

JOAQUIN PHOENIX as Theodore in the romantic drama “HER,” directed by Spike Jonze, a Warner Bros. Pictures release.

Eletrodomésticos, carros que andam sem motorista, roupas, enfim! Nosso mundo físico está cada vez mais digital, indo muito além do que já conhecemos como Web 2.0, que define uma mudança no tipo de comunicação onde a web não é mais formada apenas por emissor e receptor, e sim por uma rede completamente formada por emissores e produtores de conteúdo.

Na sociedade contemporânea, o mundo gira em torno da internet. Observe o que acontece em um escritório quando cai a rede, por exemplo, os trabalhadores não conseguem desenvolver suas atividades, pois a maioria delas dependem do acesso à internet. O mesmo acontece quando falta internet em um restaurante ou posto de gasolina. Apesar de sua atividade fim (produção de refeições ou fornecimento de abastecimento) não depender da rede, o estabelecimento não consegue receber os pagamentos, entrar em contato com fornecedores, causando imenso transtorno. Estes são exemplos simples, mas podemos pensar em nossa reação quando esquecemos o telefone celular em casa. Muitas pessoas definem que se sentem sem roupa quando estão sem o aparelho, tamanha é a falta que o item faz.

O filme “Her”, dirigido por Spike Jonze, fala sobre esse tipo de relação e nos evoca a fazer uma crítica sobre nosso comportamento em relação à internet. Nele, o personagem principal, Theodore, se apaixona por seu sistema operacional, Samantha. Na nossa vida, muitas vezes agimos como Theodore, recusando programas, relações e diálogos com pessoas reais para estarmos presos aos nossos smartphones. O conceito de rede social, que se refere aos nossos círculos de convívio e foi a base da criação das mídias sociais, muitas vezes ultrapassa aquilo que poderíamos considerar saudável, como um espaço para acompanharmos amigos que não vemos há algum tempo ou familiares que estão distantes fisicamente, por exemplo. Ultrapassa, porque acabamos nos sentindo satisfeitos apenas com esse tipo de contato, sentindo que assim continuamos fazendo parte da vida daquelas pessoas e não buscando mais um contato físico, um encontro, um diálogo mais profundo.

No filme, Samantha, o sistema, assim como Pinóquio, ou o Homem de Lata do Mágico de Oz, sonha em tornar-se um humano, ter corpo, o que nos mostra que não é tão interessante o mundo totalmente digital. Nele, não há o toque, o contato, o afeto, itens necessários ao ser humano. Vemos hoje muitas relações virtuais e aplicativos que prometem cumprir o papel de substituir esse contato, permitindo até um beijo ou uma relação sexual à distância (como o Kissenger, aparelho desenvolvido por especialistas de robótica de Cingapura), o que nos prova que estes itens continuam sendo empecilhos para relações completamente virtuais (ainda bem!).

O sistema operacional do filme reúne todos os conhecimentos da rede mundial e de seu usuário, que por um momento se sente invadido. É assim também em nossas vidas. Fornecemos informações sobre nossos gostos, interesses e localização durante todo o tempo, gratuitamente, a empresas que compram essas informações da rede para tentar um relacionamento mais assertivo conosco. Nos espantamos quando a agenda do Google nos avisa sobre um compromisso que não nos lembrávamos de ter salvo anteriormente, mas que foi linkado com a agenda de nosso Outlook, por exemplo, e no espanto com a inteligência artificial do sistema, não nos atentamos à invasão que isso pode comprovar. Assim acontece também quando entramos em nosso Facebook e vemos o anúncio sobre aquela bolsa que gostaríamos de comprar, cujo link enviamos a uma amiga via Whatsapp, sem nos lembrarmos que nós mesmos deixamos aqueles rastros.

Os aplicativos vivem em beta constante, ou seja, são sempre uma versão de teste e nós os alimentamos, indicando como preferimos seu uso, fazendo downloads, emitindo nossas opiniões, fazendo a propaganda dos mesmos com nossos amigos, e o melhor: de graça. Os usuários são co-desenvolvedores, aumentando a cada dia o número de serviços à disposição para as mais diversas atividades. Passamos cada vez mais tempo na rede, maravilhados com a infinidade de oportunidades que ela nos oferece.

Isso muda também nossos modelos de negócios. Assim como no filme, onde Samantha conversa com vários sistemas e pessoas ao mesmo tempo, nós agimos como consumidores. É cada vez mais difícil para as marcas que alcancem a fidelidade de algum cliente, pois estamos a todo o momento expostos e em contato com diversas empresas. Quando o usuário gosta de algum produto, ele pesquisa o preço do item em várias lojas, lê resenhas, verifica outras opções e tudo à distância de um clique. Sendo assim, as organizações que oferecem apenas commodities já não encontram mercado suficiente para sua sobrevivência. Buscamos cada vez mais inovação, que oferece vantagem competitiva diante às demais empresas. É assim no mundo físico, é assim no mundo digital.

O usuário não é fiel e troca de aplicativos ou sites com frequência, buscando ser ouvido e levado em consideração. Buscamos o autosserviço, trocando as idas ao banco pelo pagamento das contas pela internet, a visita a lojas pela liberdade de escolher diversos produtos em lojas virtuais, as idas a bibliotecas pela leitura de e-books. É um espelho de como nos sentimos à vontade em locais self-service, uma vez que temos liberdade de montarmos o produto ao nosso modo. É isso que desejamos fazer com a rede a todo o momento, adequá-la ao nosso padrão de uso, nossos gostos e preferências. Como vemos, a televisão, por exemplo, já é um item extremamente usado na categoria on-demand, onde podemos escolher o que assistir, quando assistir e sem interrupções publicitárias. Essa é a tendência de todos os modelos de negócio.

Mais que Web 2.0, Web 3.0, Era da Informação… Vivemos a Era da Conexão e da Participação! Que saibamos usar o seu melhor e não deixemos que ela nos transforme em Samanthas nem Homens de Lata, presos em nossa rede particular.

Fonte da imagem: Pinterest, acessado em 18 de agosto de 2016.

 

Nathalia Oliveira>> Nathalia Oliveira, 25 anos, mineira. Pós-Graduada em Marketing Estratégico e publicitária, ambos pela PUC Minas. Atua em Marketing Institucional e Endomarketing, mas tem uma quedinha (gigante), por Marketing Esportivo e Digital, suas áreas de constante estudo.

 

 

 

 

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...