Por Elvira Costa >>

A garota propaganda da minha faculdade com sede no Rio de Janeiro é a mesma garota do meu cursinho pré-concurso público com sede em Salvador. É uma pena eu não ter fotografado as peças com o meu iPhone, mas certamente vocês acreditam, porque tem sido assim mesmo.

A juventude atual desconhece a precaução de tirar mais de uma foto “para garantir”, a economia de escolher os melhores momentos, e a emoção de levar um filme Kodak para revelar e esperar pelo resultado das fotos. No atual mercado da Comunicação, as inovações tecnológicas democratizaram a fotografia. Hoje, qualquer um pode pagar um banco de dados e ter fotografias excelentes. Por isso, o avanço tecnológico tem o mérito de ter democratizado o acesso a material de alta qualidade, a despeito da esterilização da imagem. A garota propaganda da minha faculdade com sede no Rio de Janeiro é a mesma garota do meu cursinho pré-concurso público com sede em Salvador. É uma pena eu não ter fotografado as peças com o meu iPhone, mas certamente vocês acreditam, porque tem sido assim mesmo.

A juventude atual desconhece a ânsia de esperar para gravar o capítulo do seriado ou da novela, de quebrar aquele quadradinho da fita para impedir novas gravações, ou de colocar um esparadrapo em cima do local onde havia o quadradinho, para permitir novas gravações. Hoje basta assinar o Netflix, um canal a cabo ou a Globo.com. Hoje há filmes excelentes  completos no Youtube. Essa facilidade que me dá a alegria de ter centenas de filmes no Netflix é a mesma que me tirou a diversão de ir à locadora. Eu adorava ficar “séculos” indecisa entre um título e outro, só a multa pelo atraso na devolução é que não era legal.

A juventude atual não sabe o que é ficar horas ouvindo rádio esperando as músicas favoritas para poder gravar dezenas de fitas cassete e, depois, poder trocá-las com os amigos. Ela também não sabe o pânico que era quando a fita predileta embolava toda, que não tinha caneta Bic que desse jeito. E quando embolorava? Era pedir pra morrer! Na turma, sempre tinha aquele amigo com mais grana, que tinha um aparelho de som capaz de gravar o áudio de uma fita para a outra. Quem tinha um som desses era um líder na turma. Ele tinha, literalmente, o poder da gravação.

A juventude atual não sabe o que é rezar para chegar em casa e poder fazer uma ligação. Ou ter de xingar o amigo mentalmente por não atender. Mais que isso, a juventude de hoje não sabe o que é marcar o horário de chegar em casa para ligar para o namorado, a amiga, quem quer que seja. Hoje tem o WhatsApp. Eu acho o WhatsApp formidável, mas também acho um saco ficar conversando por áudio gravado. Deve ser a minha cota de estranhamento às coisas da nova geração.

De-fi-ni-ti-va-men-te a juventude atual não sabe o que é esperar dar meia noite para acessar a Internet. Se você está perto dos 30, como eu, deve estar agora ouvindo mentalmente aquele ruidinho saudoso da internet discada. Prefiro não comentar os problemas com velocidade.

Devo estar escrevendo esse texto saudoso porque novembro é o mês do meu aniversário. Certamente é por isso, mesmo que, a priori, eu não tenha me dado conta. Quem nasceu na década de 1980 viveu muita coisa bacana. Raimundos, Mamonas Assassinas, Malhação,

As Patricinhas de Beverly Hills, Xuxa Contra o Baixo Astral, A Lagoa Azul; tivemos fonte de entretenimento variado, para todos os gostos… Para os meninos que viram Carrossel tinha a Maria Joaquina. Viram como ela cresceu? Você também…

Quem nasceu na década de 1980 viveu muita coisa bacana. Mas quando o Barão Vermelho fez aquele show antológico no Rock in Rio você tinha no máximo 5 anos. Para a nossa sorte, esse show pode ser encontrado em DVD e tem até no Youtube. A gente também não é “coroa” o suficiente para ter conhecido em tempo real o fenômeno que foi a Lídia Brondi. Perdemos a “Copa das Copas” em 2014 e 1994 traz lembranças espaças. Em termos de Copa do Mundo, nós estamos no limbo. Ouvimos falar da euforia de 1970, pouco lembramos de 1994, 1998 deu uma confusão danada, e por aí vai. Em compensação, nós vimos com toda a energia o Brasil produzir dois Ronaldinhos. Somos jovens o suficiente para ter visto, ou com entusiasmo, ou com indignação, brasileiros torcendo por Messi. Acho essa rivalidade com a Argentina meio besta, mas aquele placar entre Maradona e Pelé tem o seu valor humorístico. Aquele, da Xuxa, que está rolando no WhatsApp…

Não foi só o meu aniversário que inspirou a redação de novembro. Mas muita coisa boa que os nossos “velhos” produziram há anos atrás:

• Wall Street, de Oliver Stone: é uma obra-prima. Indispensável para quem quiser saber como era o mundo dos negócios na década de 1980. Tem o Charlie Sheen novinho como um executivo em ascensão;

• Studio 54: o filme é de 1998, mas retrata a Nova Iorque da década de 1970, mais precisamente, as noites da boate Studio 54, a lendária discoteca que funcionou entre 1977 e 1986. Por lá passaram Elizabeth Taylor, Mick Jagger e Andy Warhol, para citar alguns. O filme é o retrato de um comportamento nada politicamente correto, de sexo, drogas e, nesse caso, disco music;

• Bete Balanço, o filme, escrito e dirigido por Lael Rodrigues, protagonizado por Débora Bloch, mostra o Rio de Janeiro da década de 1980. Cazuza também participa do filme;

• Vale-Tudo, a melhor novela já produzida no Brasil, tem discursos que o atual politicamente correto jamais permitiria. Tem o “negociador truculento” da década de 1980 interpretado por Reginaldo Faria. Boa parte da novela está disponível no Youtube. É um excelente retrato do nosso país pós ditadura, gravada no ano de promulgação da nossa Constituição Federal. No último capítulo, o país parou para saber “quem matou Odete Roitman”.

O aniversário faz a gente pensar na passagem do tempo, é natural. Em termos práticos, profissionais, não trocaria as facilidades que temos hoje pela internet discada de anos atrás. Mas, justiça seja feita aos novos tempos, a melhor parte de todas as inovações é justamente poder voltar no tempo e ver, pelo menos como espectador, como as coisas eram lá atrás.

Em vinte anos muita coisa mudou. Hoje a gente tem tudo no tablet ou no smartphone. Mas uma certeza dá para ter: o Ray Ban nunca sai de moda.

Fonte da imagem: https://plus.google.com/+Estad%C3%A3o/posts/hP2UWCnT5iE

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