03
dez
2014

Todos podem ser criativos. Verdade ou mentira?

Por Maria Alana Brinker >>

Se você nunca estudou sobre criatividade, pelo menos já deve ter escutado as frases: “Pense fora da caixinha.”, “Para criar tem que ser maluco.”, “Sou da área de exatas, então não sou criativo.”, “Uns nascem criativos, outros não.”, “Só o pessoal das Humanas é criativo.”, “Aquele ali deve trabalhar com criação pelo jeito que se veste.”

Todos podem ser criativos?Se posso dizer que sou fissurada por um assunto, ele é a criatividade. Simplesmente sou fascinada pelo tema e, sempre que posso, leio algum livro ou artigo que trata disso. Mas minha curiosidade não se limita somente ao ato de criar em si, e sim à origem da criatividade. Meu interesse é descobrir como podemos aumentá-la cada vez mais, qual o ponto de equilíbrio entre ela e a racionalidade – se uma coisa exclui a outra ou não. Esses e outros questionamentos é que me fazem querer ir a fundo nos estudos do tema.

Das frases que iniciaram o texto, a única que tem sentido para mim é a primeira. As demais fazem parte de estereótipos que acabamos criando muito em função de personagens que aparecem em filmes e em programas de TV, onde o sujeito criativo é aquele que se diferencia de todo mundo pelo jeito “estranho” de agir ou de se vestir.

CORAGEM E HÁBITO

Na verdade, algumas pessoas, pelas características pessoais e pela maneira como são criadas e educadas, acabam desenvolvendo mais ou menos a criatividade, como qualquer aptidão na vida, certo?! Nossa educação e personalidade têm muito peso sobre o hábito de criar. E por que falo em hábito? Porque ser criativo é, antes de tudo, uma prática. Uma prática constante de estimularmos em nós a coragem para expor ideias, mesmo sabendo que podem ser ridicularizadas; de estabelecer relações entre “coisas” que, aos olhos dos demais, não têm relação nenhuma; de ficar momentos a sós; de abstrair-se para poder contemplar algo ou alguma situação e se permitir imaginá-la de acordo com o próprio ponto de vista; de entregar as horas que passamos no banho, no ônibus, ou antes de dormir ao cérebro e dizer: vai, “viaja” por onde você quiser!

Uma das coisas que sempre pratico é a abstração. Diversas vezes peguei-me imaginando algo tão profundamente que é como se eu tivesse saído do ambiente em que estava, e quando “voltei para a Terra” me dei conta de que tinha de levantar porque a parada do ônibus estava próxima. Hehehehe!

CORAGEM, CORAGEM, CORAGEM

Um dos livros sobre criatividade que li e achei muito esclarecedor foi do psicólogo Rollo May, chamado A Coragem de Criar. Nele, entre tantas descobertas relatadas, o autor fala sobre o encontro, que é definido como o momento em que o artista (ou qualquer um de nós) atinge seu ponto de vista sobre alguma coisa – um ponto de vista que é único, diferente daquele que as pessoas em geral têm – e a partir daí começa a ter insights e inicia sua criação. Ele também fala da contemplação, que faz parte desse processo, e cita como exemplo a apreciação de uma pintura de paisagem num museu: quando à admiramos, não estamos vendo apenas a paisagem em si, mas o olhar do pintor sobre ela. Por isso, contemplar outras visões também é um ato criativo, pois nos estimula a pensar “fora da caixa”, de um jeito diferente que a maioria enxerga.

O processo criativo deve ser estudado, não como o produto de uma doença, mas como a representação do mais alto grau de saúde emocional, a expressão de pessoas normais, no ato de atingir a própria realidade. A criatividade está no trabalho do cientista, como no do artista; do pensador e do esteta; sem esquecer os capitães da tecnologia moderna, e o relacionamento normal entre mãe e filho. A criatividade, como define o Webster, é basicamente o processo de fazer. (pág. 32, A Coragem de Criar)

No trecho acima, May afirma que a criatividade não é vinculada à loucura, à maluquice e somente às áreas artísticas. Ao contrário, ela está presente no cotidiano de todos e sua prática é um sinal de que a pessoa é saudável emocionalmente. Criar não é para poucos, é para todos! E ser criativo não é apenas ter ideias. Mais do que isso, é executá-las.

No meu próximo post, falarei sobre a diferença entre criatividade e talento. Fique ligado aqui no Comunicação e Tendências. Até mais!

Referência: May, Rollo. A Coragem de Criar. Tradução de Aulyde Soares Rodrigues. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1982, 4a edição.

Fonte da imagem: http://www.ufrgs.br/icd/wp-content/uploads/2014/05/cerebro-criativo.jpg

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...