Por Maria Alana Brinker >>

Talvez você não tenha percebido, mas essa ideia de vigiar 24h o que os outros estão fazendo já é bastante antiga. 

Confesso que faz muitos anos que não acompanho mais as edições do Big Brother Brasil. Na verdade, desde que percebi que o conteúdo não me agregava muita coisa útil. Quer dizer, até agregou alguma coisa, porque rendeu este post!

Se você também não assiste ao reality show como eu, ou assiste só de vez em quando, deve saber que ficar por dentro das últimas novidades da “casa” não é coisa difícil, seja pelas conversas paralelas que rolam no ambiente de trabalho ou pela mídia em geral, que te conta, mesmo na chamada da notícia, um resumo do que rola lá. Quem quiser que me chame de careta, mas não consigo gastar meu tempo – hoje em dia tão escasso para quase todo mundo – acompanhando a rotina de pessoas que, em princípio, não têm nada a me acrescentar com seus diálogos e fofocas.

O QUE PODEMOS APRENDER COM O BIG BROTHER

Primeiro de tudo, você há de concordar comigo que curiosidade é algo inerente a todas as pessoas. E é neste ponto que o programa atrai audiência: ele mostra tudo (ou quase tudo para quem não tem TV por assinatura) da intimidade de gente comum.

Programas do tipo reality shows tornam-se sucesso pois expõem as relações interpessoais como elas são, ou seja, tudo que pessoas comuns fazem no dia a dia e não mostram. Ou o que sua família, seus amigos e seus colegas de trabalho fazem e você não vê. Confissões, escolhas, fofocas, … Tudo fica explícito e possível de ser visto a qualquer hora do dia.

O Panóptico

O que talvez você não saiba é que essa ideia de vigiar 24h o que os outros estão fazendo já é bastante antiga. No século XVIII, o filósofo e jurista Jeremy Bentham desenvolveu o panóptico: um projeto de prisão circular em que um observador pudesse ver todos os locais onde houvessem presos, mas os presos não pudessem saber quando havia um observador na torre. Analisando a funcionalidade do panóptico, Bentham se deu conta de que ele poderia ser utilizado, também, em escolas e no trabalho para vigiar a todos e tornar o funcionamentos destes locais mais eficiente.

Considerado um dispositivo disciplinar, o panóptico foi um dos primeiros mecanismos de controle social e vigilância a serem disseminados, dando origem a outros bem comuns em nossa sociedade, como as câmeras de vigilância em locais públicos, os rastreadores veiculares e o acesso aos e-mails dos empregados, por exemplo. O uso dsses dispositivos se tornou tão natural que cada vez mais novas formas de vigilância são inseridas em nosso dia a dia sem que percebamos.

É, parece que todos nós estamos num grande reality show, muito antes do primeiro Big Brother existir, fazendo uma grande observação de todos sobre todos. E nem sabíamos disso!

Referência: 

Foucault, Michael. Vigiar e Punir: História da Violência nas Prisões. São Paulo: Editora Vozes, 29a edição.

Fonte da imagem: 

inciclopedia.wikia.com

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  • Lucas Salles

    Meu caro, sensacional esse post de hoje.

    Ele reflete exatamente a situação que vivemos hoje. Uma situação coerciva, que educa a sociedade pelo medo.

    Eu escreveria mais, mas estou sem inspiração. Parabéns, e penso igual !

    • Obrigada pelo comentário, Lucas! Seja bem-vindo ao blog e, quuando tiver mais inspiração, mande seus comentários!