Por Sabrina Raupp

Era uma vez duas empresas que atuavam no mesmo ramo de negócios. Uma delas, com aproximadamente 85 anos de existência, a outra, com mais de 150. Em cada uma delas havia um grupo de trabalhadores de diferentes níveis sociais, diferentes origens, diferentes costumes; enfim, que possuíam diferentes culturas. Também, em cada empresa reinava uma cultura que, provavelmente, era diferente da outra.

Um certo dia, a empresa com mais de 150 anos comprou a outra e resolveu transformar as duas em uma só. Esse processo foi gradual, tanto para quem trabalhava nas empresas como para quem era cliente delas. E ela agiu assim porque sabia que unir o que havia de melhor em ambas mexeria com o dia-a-dia das duas, ninguém sairia ileso desta junção.

Esse é um resumo, bem resumido, da história da junção dos bancos Real e Santander. Fato ocorrido em 2007, quando o consórcio formado pelos bancos Santander, RBS e Fortis adquiriu o ABN AMRO BANK que controlava o Banco Real.

Alguns autores descrevem cultura como um conjunto complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes e qualquer outra capacidade e hábitos adquiridos pelo homem como um membro de uma sociedade. A cultura organizacional pode ter a mesma definição: um conjunto complexo de conhecimentos, crenças, arte, moral, costumes e qualquer outra capacidade e hábitos adquiridos pelo homem como um membro de uma organização. A cultura organizacional é criada pelos membros da organização, com forte influência dos gestores. Ela caracteriza-se como um guia, um mapa que orienta a ação dos funcionários da mesma. É por isso que entender a cultura de uma organização não é uma tarefa fácil. Analisar os hábitos, crenças, mitos, valores e costumes é um processo tão complexo quanto cada um dos itens a serem analisados. Além disso, esse cenário pode ter um aumento no grau de complexidade se, assim como o Real e o Santander, duas organizações unirem-se.

A fusão de organizações e o que isso influi na cultura das partes envolvidas rende vários assuntos para serem estudados, mas vou deter-me na relação organização-funcionários. Como as mudanças transformam a cultura e como elas devem ser informadas aos funcionários para não causar pânico e não despertar o medo da demissão.

Permito-me dizer que as organizações sentiram a necessidade de criar uma relação mais consistente com seus trabalhadores no momento que perceberam que além de funcionários, eles também são formadores de opinião da mais alta credibilidade. É impossível acreditar que uma pessoa não vá comentar com ninguém sobre qualquer assunto relacionado ao seu trabalho. Nos bares, botecos, casas de amigos e até no supermercado podemos encontrar alguém falando sobre como seu chefe é um “mala” ou sobre como sua empresa não valoriza seu trabalho. Nestes casos, por mais que a propaganda mostre uma empresa feliz, quem escuta os comentários descontentes vai ficar com a impressão de que aquilo que viu na TV “não é bem assim”.

Embora, praticamente, todas as empresas declarem que consideram a comunicação interna fundamental para tornar os colaboradores comprometidos com os objetivos e o sucesso dos negócios, nem todas possuem uma política formal para essa função. O Santander faz parte dessa porcentagem. Segundo o blog Pólo RP, criado por acadêmicos do curso de Relações Públicas da Faculdade Casper Líbero, “as estratégias de comunicação para o público interno não foram publicadas, porém, existiu uma iniciativa interessante que tentou fazer a junção de culturas e unir o melhor das duas organizações”.

O Santander aproveitou um tradicional evento institucional realizado anualmente pelo Banco Real para falar com seus mais novos funcionários. No Encontro de Varejo são reunidos todos os gerentes das agências do Banco Real por quatro dias. Neste ano, o tema do evento foi moldado ao da campanha que anunciou a junção dos bancos: Juntos. Na recepção do evento, todos recebiam uma camiseta vermelha, cor do Santander, para dar o sentimento de pertencimer à mesma equipe.

A transformação de uma cultura pode ser um processo lento. Levou praticamente três anos para a substituição da marca Real pela do Santander. Ok, três anos não é tanto tempo assim se considerarmos que as mudanças começaram gradativamente de
dentro para fora, ou seja, primeiro apresentando a nova cultura ao funcionário, depois ao cliente. Primeiro transformando a cultura, depois mudando a cara dela. Da alma para o corpo. Acredito que a cultura resultante dessa fusão está sendo construída para adequar o que havia de melhor em cada organização.

.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...